quinta-feira, maio 15, 2008

A culpa do desacordo ortográfico é nossa

Em 1911, os proto-fascistas da república mudaram a norma ortográfica sem consultar a vasta maioria dos utilizadores da língua. Mesmo os seus compatriotas não tiveram direito a petições na net ou coisa parecida. Os senhores que mandavam decidiam que se passava a escrever segundo a fonética e não a origem da palavra. Revolucionários e cheios de boas intenções, julgavam simplificar (?) a escrita e facilitar a alfabetização da plebe ignara. Os resultados ficaram à vista: nem a malta aprendeu a ler (72% de analfabetismo ainda em 1920) nem a língua voltou a ser a mesma em lado algum.

O primeiro demonstrou a pouca importância que a "simplicidade" da escrita tinha na sua instrução. O segundo, a leviandade dos autores da reforma. A nenhum curador de uma língua culta e universal havia ocorrido semelhante estupidez. Pelo formalismo, sobranceiro para com outros falantes, e pelo método escolhido, permitindo reproduzir as variadíssimas vocalizações do falar lusófono, a atitude extinguia, irreversivelmente, a unidade da língua e condenava-nos a todos a cem anos de tentativas de acordo ortográfico (*), coisa única no mundo.

É este o erro que alguns tentam agora apagar.
Por isto, quando alguém defende uma grafia baseada na etimologia, "científicamente correcta", não posso deixar de concordar. Afinal foi isso que o Brasil conservou em 1911, à revelia dos tontos de Lisboa. Se hoje em dia eles, brasileiros, se aperceberam da própria força e vêm defendendo a transcrição directa da fala à escrita mais não estarão que a concordar com a brilhante idéia dos republicanos d'antanho.

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(*) E foi isso mesmo que aconteceu. Com a indiferença própria aos gigantes, é muito provável que a Academia Brasileira de Letras só tenha dado pela mudança portuguesa uns 20 anos depois. A contrapor ao arrivismo português, a primeira tentativa de reaproximação da norma escrita até veio, pois, do outro lado do Atlântico, em 1931.

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