É uma expressão hebraica que significa "chorando e disparando" e que traduz em duas palavras a táctica de vitimização a que Israel nos habituou sempre que parte para a guerra. É a mesma táctica que vejo ser usada em vários blogues, nos comentários aos posts contra a guerra: "lá está você a ser anti-semita..."
Israel afirma que a actual ofensiva visa defender o seu território contra os ataques de rockets do Hamas, mas em direito a legitima defesa deve obedecer à regra da proporcionalidade. Não podemos responder a uma chapada com um esfaqueamento, a um murro com um tiro.
Israel nem sequer usa a táctica do "olho por olho, dente por dente", no caso da ofensiva em Gaza modificou-se a expressão para "olho por ambos-olhos, dente por dentadura/boca/e-todo-o-sistema-digestivo".
Entre 2005 e 2007, os rockets do Hamas mataram 11 israelitas. No mesmo período, as bombas de Israel mataram 1290 palestinianos (destes 222 eram crianças).
Mas Israel está a fazer todos os possíveis para que esta seja a última ofensiva militar na Palestina.
Sim. É provavelmente o fim da história para a Palestina. Estamos a um passo da solução prevista pela Mossad nos planos da "Operação Cast Lead" elaborada por Meir Dagan , actual chefe da Mossad (Barak Ravid - Operation Cast Lead ": Israeli Air Force strike followed months of planning , Haaretz , 27 de Dezembro, 2008).
O plano, criado antes de 2001 com o objectivo de afastar Arafat, mantêm-se em vigor. Alguns dos passos intermédios já foram dados (separação da Palestina em duas zonas distintas, com governos diferentes e negociações separadas com ambos - Le Monde, 17 de Dezembro, 2001).
A retirada dos judeus dos colonatos de Gaza antecipou a construção do muro à volta da faixa, transformando-a naquilo que é hoje: um campo de concentração. Teria Israel construído o muro com colonatos dentro?
Seguiu-se o bloqueio a Gaza, impedindo o comércio, impossibilitando o funcionamento de todas as infra-estruturas, enfim, tornando a vida no gueto num inferno.
A "trégua" (coloco a palavra entre aspas porque não havia nenhuma trégua oficial uma vez que o governo do Hamas nunca foi reconhecido oficialmente quer por Israel quer pelos EUA) foi quebrada no dia 4 de Novembro, dia das eleições americanas. Israel bombardeou a faixa de Gaza declarando que o fazia para impedir a construção de túneis.
No dia 5 começou o cerco e o corte no abastecimento de alimentos e medicamentos. Simultaneamente ocorreram incursões armadas (Gaza truce broken as Israeli raid kills six Hamas gunmen - The Guardian , 5 de Novembro 2008).
Aos palestinianos restará, por fim, o êxodo. Quando a vida se tornar absolutamente inviável em Gaza, Israel abrirá o cerco e deixará sair o que restar da população civil. Uma limpeza étnica, portanto. Há algum outro nome a dar-lhe?
Resta dizer que na Cijordânia as negociações não têm trazido nada de novo aos Palestinianos, embora o Governo de Habbas seja da simpatia de Israel e dos EUA. Os colonatos continuam a ser construídos (doze mil israelitas na margem esquerda substituíram os oito mil que saíram de Gaza) e os postos de controle do exército não foram desmantelados, cortando em pedaços o território e retirando qualquer autonomia aos seus habitantes.
Mahmud Habbas tem sofrido humilhação sobre humilhação e já não lhe resta nenhuma credibilidade junto dos seus.
Acaba assim a história de um povo traído pelos seus líderes (corruptos ou fanáticos religiosos), pelo mundo árabe em geral: os que se manifestam hoje no Líbano esqueceram por certo que foram as milícias cristãs que executaram os massacres de Sabra e Shatila e ninguém foi julgado, e que os Palestinianos refugiados no Líbano vivem virtualmente presos em campos.
Traídos, por fim, pelo Ocidente dos Direitos Humanos.